As duas faces da superação:  Seus treinos são movidos por um Ego Forte, ou Frágil?

As duas faces da superação: Seus treinos são movidos por um Ego Forte, ou Frágil?

Se você já entrou em um box de Crossfit, já deve ter ouvido ou lido a frase: Deixe seu Ego do lado fora! Isso por que em muitos boxes os alunos, na busca pela superação pessoal que o CF prega, acabam ultrapassando os seus limites em mais do que deveriam e se machucam. Infelizmente quem acaba por levar a culpa é o esporte. Por isso, solicitamos ao psicólogo esportivo, Daniel Branco, (@branco_daniel), e ao mesmo tempo dono da Kaluanã CrossFit (@kaluanacrossfit) para escrever de forma um pouco mais técnica sobre isso! Segue o texto:

 

Aqueles mais curiosos sobre a História do Crossfit já devem ter descoberto que ela é permeada por um saudável clima de contracultura, seja pela mudança de foco do estático para o funcional, do saudável no lugar do mercadológico, ações contra a indústria de alimentos e, muito comentado mas pouco notado, pela cultura de comunidade em uma sociedade que nos empurra cada vez mais para o individualismo ou pela motivação à superar-se.

Seja de forma pensada por já estar procurando um estilo de vida fora do mainstream, ou mesmo de forma despercebida simplesmente quando buscava os melhores resultados físicos, estes fatores fazem com que a grande maioria das pessoas que entram em um box de crossfit, criam uma paixão duradoura pela modalidade e sua cultura. Existem vários fatores muito positivos para isto, que certamente causam um bom impacto sobre a qualidade de vida de quem dá o primeiro passo para entrar em um box. Podemos falar sobre estes fatores em outra oportunidade, mas aqui vamos apontar para as duas faces de um deles; das quais uma delas precisa ser desmascarada: As duas faces da superação!

A ideia de superar seus limites é algo a que todos almejam em um bom treino, sentir-se presente fazendo seu melhor, perceber-se evoluindo passo-a-passo. E sim, isto pode ser extremamente produtivo como forma de dar vazão à excessos mentais que o dia-a-dia produz, motivação interna para treinar melhor e até mesmo a alta intensidade necessária para os bons resultados fisiológicos, funcionais e estéticos que todos já conhecem. Por outro lado, quem já entrou em um box de Crossfit sabe que é comum ouvir, ou ler a frase, que diz em letras garrafais: Deixe seu Ego de fora!

Esta frase foi criada exatamente por conta desta facilidade que a modalidade oferece para testar seus limites, mas por conta, também, da tênue linha que existe entre testar-se dentro de uma fronteira razoável e fazer mais do que se está fisicamente preparado no momento. O que podemos chamar de face ruim da superação. A primeira “face” leva aos bons resultados citados acima, já a segunda “face” pode levar a indesejadas lesões e uma vida curta na modalidade que até aquele momento estava lhe fazendo bem.

A imagem é conhecida por praticantes e temida por coaches. Aquele aluno, que ignora totalmente as indicações do Coach para diminuir a carga, ou adaptar um movimento, ou até pior, aquele que desiste no começo dos treinos por sentir-se frustrado por ter que adaptar os treinos. Adaptações (ou escalonamentos = scalling) que o Coach sugere, não por mal, mas porque sabe que estas alterações no formato original do treino (como prescrito, ou RX no vernáculo crossfiteiro) são a base da metodologia, e que sem elas, não há evolução. O resultado comum da falta destas adaptações acaba sendo, em geral, do praticante executando o treino com movimentos sofríveis, se colocando em risco sem nem mesmo perceber isto.

E, sim, não se enganem, pois em bons espaços de treino, os coaches vão insistir para que o aluno diminua a carga, ou faça um movimento mais simples que domina melhor, mas em alguns casos a negativa por parte do empolgado aluno é taxativa. Já presenciei a desconfortável situação do Coach precisar pedir para o aluno admitir que estava assumindo um risco desnecessário, apesar da instrução contrária de um profissional especializado.

Esta atitude parece ilógica para você? E, é! Mas, vale lembrar que apenas uma pequena parcela de nossa mente opera de forma consciente e racional, sendo que muito do que nos habita passa despercebido e pode fugir à lógica. Se somarmos a isto o contexto no qual vivemos, de uma sociedade que supervaloriza o sucesso acima de tudo e ensina que deve-se mostrar uma imagem forte e invulnerável frente a todos, fica fácil entender que não é um problema de raciocínio lógico, nem uma patologia individual da qual devemos culpar cada um que se recusa a adaptar um treino, mas sim algo que escapa à esta lógica consciente.

Pois, conscientemente, todos sabemos que é preciso respeitar a existência de uma curva de aprendizagem, na qual ninguém começa executando um movimento complexo pelo seu final... Novamente, óbvio, não é verdade? Mas, existe uma armadilha mental, resultante de um conflito interno e inconsciente que gera uma dissonância entre este saber lógico e o fazer/agir na hora do treino. Como um pequeno curto circuito após o 3-2-1...

Vale a pena entendermos melhor como isto funciona! Pois espero que até este ponto esteja claro que o que o assunto de nossa conversa não é algo que acontece apenas dentro do Box, mas sim que permeia e certamente atrapalha toda nossa vida. Como sempre acreditei que o Crossfit vai além de puramente um movimento físico, ele nos surpreende com mais uma possibilidade de atravessar um mal-estar da cultura vigente, mas para isto, é preciso entender melhor o que acontece, digamos, por baixo dos panos.

Para isto precisamos falar um pouco mais de Psicologia a começar pela tão famosa frase, que nos incita a deixarmos nosso Ego do lado de fora do box; ao que alerto, geraria alguns resultados, no mínimo, catastróficos. Pois, o Ego é uma de nossas instâncias psíquicas indispensáveis para que possamos interagir com o mundo. Em linhas gerais, ele engloba nossa noção de eu, de nossos papéis sociais e daquilo que pensamos que as pessoas esperam de nós. Sem o Ego a relação entre mundo interno (mente, pensamentos, instintos, etc.) e o mundo externo, seria impossível. Em paralelo à noção de Ego, o conceito de Narcisismo, segundo a psicanálise, não adquire um tom pejorativo, mas sim denota a relação de construção do Ego, e os investimentos necessários para que seja construída uma imagem de Eu, com a qual atuamos diante da sociedade. O Narcisismo é parte necessária ao desenvolvimento do Ego e faz uma relação importante entre as ligações que fazemos com as outras pessoas mas, se pensarmos em termos de quantidade, uma personalidade narcísica, pode “se atrapalhar” no sentido de tornar o foco no outro algo que extrapola o equilíbrio. Dito isto, o que provavelmente se quer dizer ao culpar o Ego pela “face malvada” do desafio, seria a alusão a uma personalidade extremamente narcísica e a um ego que, embora cause a impressão enganosa de se amar extremamente (como no mito de Narciso que se afoga ao se fascinar profundamente por sua imagem em um lago), na verdade nos fala de um Ego frágil, que precisa da constante aprovação de seus pares para poder entender-se amado.

Claro, todos precisamos disto em certa medida, mas nos casos de uma personalidade narcísica, estamos falando de uma necessidade tão premente que acaba direcionando as ações do sujeito até mesmo para atitudes que o possam colocar em risco, ou prejudicar sua relação com os outros. Portanto, se fôssemos escrever a frase das paredes de acordo com a Psicanálise, ela seria algo como: Aqui dentro, controle seu narcisismo!

Certo, até aqui já sabemos que estamos falando de um narcisismo em quantidade que gera uma sobrecarga, uma sobra de quantidade que beira a onipotência (pelo menos à ilusão dela). Este excesso gera algo que pode ser chamado de uma exterioridade nesta relação consigo mesmo, ou seja, a necessidade de ser visto e definido pelo olhar do outro, de forma constante, urgente!

Aí mora o grande problema, pois esta excessiva necessidade de ser “bem” visto pelo outro, como alguém forte, capaz, invencível mesmo que apenas em sua fantasia, entra em conflito com um detalhe do desafio, que seria a “face boa”, o SE do desafie-se. Mas, com toda esta pressão cultural e interna (inconsciente) para que o foco esteja em como somos vistos pelo outro, o SE do desafiar-se sobre uma espécie de fading out (desaparecimento), pois a visão de si mesmo pode ficar amalgamada à como o outro nos vê, e que de preferência nos veja como alguém forte, invulnerável.

Na prática, isto faz com que se esqueça que é preciso estar vulnerável para aprender. Não existe outra forma! E, na verdade, as pessoas que mais se desenvolvem, seja no crossfit ou em suas áreas profissionais, são aquelas com grande capacidade para lidar com este período de frustração e vulnerabilidade que a aprendizagem exige. E que continuará exigindo, mesmo com a evolução nos treinos, tendo em vista que a evolução é constante quando o movimento é constante. Aprendemos sempre e sempre estamos vulneráveis, mesmo com todo esforço para provar o contrário.

Outro “equívoco interno” gerado pela exteriorização (aquela do narcisismo em excesso), é a identificação da vulnerabilidade com fraqueza. O que novamente parece óbvio, pois se existe a necessidade de aprovação constante do outro, existe o desejo de mostrar-se como alguém forte, sempre forte! Mas, será que isto passaria pelo crivo da lógica? Ora, chegar em um local cheio de pessoas, admitir que tem falhas e que está lutando para melhorá-las, lidar com a dificuldade de aprender ou com o tempo necessário para que o condicionamento físico aconteça, dificilmente vai ser confundido com outra coisa além de pura coragem!

Ok, agora vamos tentar ligar os pontos, ou agrupar os movimentos, hora de tentarmos um Full Snatch depois de entendermos as partes separadas: É fácil perceber o tamanho do autoengano que este conflito inconsciente cria, pois ao mesmo tempo que identifica erroneamente como coragem um comportamento que na verdade provém do medo de como o outro nos vê (não poder admitir que tem limitações para não ser visto como alguém que está aprendendo e não perder o “amor” do outro), também nos leva a identificar com fraqueza o estado de se mostrar aprendiz, para de fato aprender e evoluir.

Na prática de um treino de Crossfit, ao cair nestas duas armadilhas, o praticante coloca à frente de sua segurança e do bom desenvolvimento de seus treinos, a necessidade de ser visto pelos outros como alguém que escreveu RX no quadro e se mostrou muito “forte”.

Seria realmente uma prova de força não poder admitir que está em uma escalada para tornar-se melhor, e que esta própria escalada diz que precisará adaptar os treinos e cargas até estar pronto para elas? A Psicanálise nos diz que é exatamente o contrário, pois somente um Ego forte pode admitir suas limitações sem se importar (tanto) em como está sendo visto pelo resto do grupo.

Como nos mostra a pesquisadora da área social Brené Brown: “Longe de ser um escudo eficaz, a ilusão de invulnerabilidade desencoraja a reação que teria fornecido uma proteção genuína”. Qual seria esta proteção? Fazer um bom treino, bem executado, dentro de seus limites sem uma apresentação desesperada de movimentos duvidosos e arriscados, e mais importante, contar com a relação com o outro, uma relação autêntica e genuína baseada na troca, que a comunidade de um box possibilita e está pronta para isto. Corre-se o risco de perder tudo isto pela simples necessidade de provar para os outros que é mais forte, invulnerável, mas também inacessível, criando uma espécie de relação asséptico, parcial com o grupo; pois compartilhar somente as alegrias, ou fingir que a vida é somente feita dos posts de nossos PRs no instagram, não é realmente compartilhar muita coisa.

Portanto, quando bater aquela vontade, que vem de algum lugar que não se consegue perceber no momento, de não adaptar aquele wod do CrossFit Open com movimentos que você ainda não domina, aquela vergonha de fazer menos repetições que os mais experientes ou aquela vontade de aumentar as cargas mesmo quando o Coach disse para diminuir; lembre-se: forte é aquele que admite suas fraquezas para si mesmo e luta para mudar aquilo que pode, pois como disse em um de seus discursos Theodore Roosevelt: “o crédito pertence àqueles que estão por INTEIRO na arena da vida”, e estar por inteiro é ser forte para compartilhar e aceitar suas fraquezas, pois somente assim, na melhor das hipóteses, seremos mais fortes, como indivíduo e como comunidade.


Daniel R. Branco

Mestre em Psicologia, Psicanalista e Psicólogo esportivo. CrossFit Level 2 / CrossFit weightlifting / Proprietário da Kaluanã CrossFit em Curitiba.

18.3  - O WOD "Separador" do CrossFit Open

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