Ele será o primeiro brasileiro a disputar o os CrossFit Games nas categorias principais: conheça Pablo Chalfun

Ele será o primeiro brasileiro a disputar o os CrossFit Games nas categorias principais: conheça Pablo Chalfun

Se você é brasileiro, faz CrossFit e segue o HugoCross, sabe que esse final de semana, nos regionais da América Latina que aconteceram no Rio de Janeiro, o carioca Pablo Chalfun conquistou a vaga para os CrossFit Games. Será a primeira vez que um brasileiro irá competir nas categorias principais do maior teste de condicionamento do mundo. Ele não era o favorito, foi o último a conseguir uma vaga para os Regionals, na trigésima colocação no Open na América do Sul e precisou esperar e torcer para que alguns atletas optassem por competir em time. Mas foi o suficiente. Uma vez nos regionais ele mostrou a que veio e teve apenas um evento, o Linda, fora dos top 5. Ele nos concedeu essa entrevista no dia seguinte, segunda-feira, de sua classificação e veja o que ele nos contou:

Perfil Técnico

Nome: Pablo Chalfun

Box que treina: Valente CrossFit

Há quanto tempo treina CrossFit? Conheci o CrossFit em 2012 e treinava para melhorar no Futebol Americanoa até 2015. Depois, em 2016, passei a treinar só CrossFit.

Benchmark favorito: Diane e Fran são os que eu mais gosto.

Ponto Forte no CrossFit: São wods que você tem que entrar na famosa “pain cave”, que você tá sentindo aquela queimação e você tem a opção de parar ou continuar, e eu sempre escolho continuar.

Ponto Fraco no CrossFit: Hoje seria um volume grande de Deadlifts, é normalmente o que acaba me pegando.

HC: Parabéns mais uma vez pela classificação aos CrossFit Games. Logo depois do anúncio, eu perguntei como você estava e você disse que a ficha ainda não caiu. Hoje é o dia seguinte ainda.....mas a pergunta fica...a ficha caiu? Afinal de contas você fez história ontem para o CF Brasileiro sendo primeiro brasileiro a ser classificados nas categorias principais.

PC: Claro que foi um feito incrível a classificação, essa vaga, mas o mais incrível foi o jeito que aconteceu. A torcida contando as repetições, toda essa empatia da torcida, né? Comigo, coma forma como eu estava competindo e tal Acho que isso que foi o mais incrível, parece coisa de filme ou sei lá, cara. Então acho que a vida é assim, você alcança um objetivo e já traça um novo, né? Então o objetivo agora é, para qualquer um que ocupe a vaga de representante da América Latina, fazer com que o games veja que aqui precisa ter mais vagas. Que aqui tem potencial, que a América Latina é forte, que os atletas são competitivos e que a gente precisa ter mais vagas aqui. Pelo menos mais umas duas vagas, levar o pódio inteiro para os Games. Então meu objetivo é esse, fazer lá uma boa competição que prove isso, que mostre isso, que eu represente de fato qual o objetivo da América Latina.

HC: Em que momento você sentiu que a vaga para os CrossFit Games era sua e que ninguém tiraria ela de você?

PC: Foi no final dos thrusters, quando eu vi que o Luis [Luis Oscar Mora, segundo colocado] quebrou na série de 12, aí eu vi que estava tranquila a prova, que eu não ia quebrar os thruster e só faltavam 10 chest to bar. Eu já fui até mais tranquilo para o chest to bar, já nem tava mais correndo tanto indo em direção a barra, eu sabia que não ia perder a vaga. Mas acho que o mindset vem antes, né? Eu sei que é difícil você falar que o cara que foi o último a se classificar estava pensando que ia ganhar, ele sabia que ia ganhar. Mas eu sabia que eu tinha grandes chances de estar no pódio do Regional, e esse meio que era meu objeitov para esse ano. Estar no pódio sdo regional, não necessariamente ganhar. Por que ganhar depende de outros fatores, tem que estar num dia bom, enfim, não depende só de você. Mas você ir bem em todos os eventos e dar o seu melhor só depende de você e é algo que você pode controlar. E o meu mindset era esse desde o começo do ano. Pessoal vai ver lá a mensagem de Fevereiro falando isso e tal e vai achar que é arrogância e tal mas na verdade era meu mindset, era o que eu queria para esse ano eu sabia que era palpavel. Eu já fiz outras competiçoes na América eu conhecia os atletas e sabia onde eu podia estar, dependendo dos wods. O mindset foi esse, trabalhando as minhas deficiências para estar ali e fazer isso.

O fato da competição esse ano ser só América Latina foi bom por que eu sabia onde eu estava mais ou menos e conhecia os outros competidores, a maioria dos competidores, e podia tracar objetivos palpaveis. Então não foi maluquice da minha cabeça, não foi maluquice. Foi análise, outras competições que fiz, outros resultados, como estão as pessoas, como eu estou. Abdicar de muita coisa para poder estar numa posição melhor que eu já estive em relação a preparação. Em relação a outros campeonatos que participei. Fiz um esforço na alimentação maior do que já fazia. Parei de comer qualquer tipo de açúcar. Então fiquei mais regrado ainda na alimentação. Para tentar fazer aquela diferençazinha no final. Passei a dormir na casa do meu padrinho por que é perto do meu trabalho e passei a ganhar uma hora e meia de sono por dia. Então são pequenas coisas que você tem que sair da rotina para conseguir alcançar o que você não fez antes. Você está fazendo algo diferente hoje para alcançar o que nunca alcançou.

HC: Ano passado, nos South Regionals, você ficou em 40o e sua melhor colocação foi um 20o no evento 1. Esse ano, com o tempo que você venceu o evento 4, você teria vencido o mesmo evento nos South Regionals. (um dos poucos que podemos comparar). Você falou de alguns detalhes que você mudou para te auxiliarem nessa conquista. Em termos de treinamento e planejamento, algo mudou? Teve uma preparação mental mais forte esse ano?

PC: Então, ano passado eu tive uma lesão no final do open, refazendo o último wod. Eu estirei a panturrilha direita. E meio que a minha preparação para o regional não foi muito bem feita. Ainda mais para o primeiro regional, né? Eu só voltei a treinar levantamento e treinar membro inferior umas duas ou três semanas antes do regional, então a minha preparação foi muito prejudicada.

Nessa questão que você pontuou, acho que a gente precisa às vezes ir lá fora e ver como são as coisas. Sair da zona de conforto, principalmente, para crescer. Acho que nada crescena zona de conforto, como dizem. Acho que os regionais ano passado abriu meu olho para me mostrar onde eu queria estar ano que vem. Mostrou que deveria continuar competindo no individual, e insistir em competir no individual mais um pouco. Me deu muito aprendizado. Se você for ver as provas a fundo ano passado, você pode ver que toda as provas eu começava no primeiro e segundo round em primeiro na bateria e depois ia caindo. Acho que foi não apenas uma questão do detalhe que eu falei que melhorei na minha preparação, mas foi também essa questão de se conhecer dentro do WOD, de ganhar essa maturidade. Você ser mais maduro na hora de fazer o WOD. Saber que a sua energia é finita e vai acabar. Então você tem que trabalhar ela da melhor forma possível. Guardar o sprint para a hora certa, guardar aquela energia final para um movimento que você é bom. Segurar num movimento que você é pior, você tentar executar ele num ritmo menor sem se preocupar com o cara que está na sua frente. Acho que é essa questão de sair da zona de conforto e ficar mais maduro.

HC: Você falou que começou o CF para ajudar no treinamento do Futebol Americano. Em 2016 você passou a focar só no CrossFit. Quando que você percebeu que esse era o seu esporte? Que você poderia ter sucesso nele?

 PC: Eu comecei o Crossfit de fato para ajudar no futebol americano, na verdade eu conheci em 2012, mas o que fazia era um treinamento de força apenas, e uma vez por semana um conditioning, que era uma espécie de crossfit. Em 2013 eu comecei a me interessar mais, e achei um box para treinar, até porque antes eu fazia na academia, e lá era meio precário, fazer os exercícios com anilhas de ferro, não era muito bom. No final de 2013, início de 2014 eu até me classifiquei para o TCB, e já percebia que era bom no Crossfit também, só que eu ainda preferia e queria estar muito na seleção brasileira de futebol americano, era o meu objetivo e eu só parei quando eu consegui me estabelecer na seleção e nós conseguimos nos classificar para o mundial em 2015, participamos deste mundial, e aí tendo atingido este objetivo, pensei, bom estou indo bem no crossfit, já tinha aberto meu box, aí realmente quis focar mais no crossfit, pois sabia que de certa forma, um treinamento atrapalhava um pouco o outro. O crossfit ajudava no futebol americano, mas eu tinha que abrir mão de fazer wods longos, de trabalhar volume alto para me manter sempre bem para o futebol americano e estar perto do estímulo que é deste esporte.

HC: E como vai ser agora a sua preparação para os CrossFit Games? Vai tirar alguma folga? Como será essa fase na sua periodização? Polimento? Trabalho em eventuais pontos de melhorias? Ou segue forte?

 PC: Eu ainda estou avaliando, mas nesta semana pretendo descansar. Eu devo voltar a me movimentar na quarta-feira, e se eu tiver me sentido bem, vou fazer alguma coisa mais tranquila nesta semana, nada demais. E retomando, eu vou inserir exercícios que são mais comuns aos Crossfit Games, como natação, talvez duatlon, triatlon, e devo voltar também a trabalhar cargas altas, o que eu tive que reduzir em função do Regional, pois já tinham saído as provas do regional, então eu já tinha parado o trabalho de levantamento com cargas altas, focando mais no regional. Eu preciso continuar trabalhando minhas deficiências, por exemplo, o único wod que fiquei fora do top 05 (Linda – 17°) no Regional, todos os demais fiquei no top 5, como eu falei essa é uma dificiência, e eu preciso trabalhar em cima disso, sempre melhorando a resistência do meu quadrado lombar e fortalecimento, para poder ter uma performance ainda melhor nos Games.

HC: Você vai estar competindo com os maiores nomes do nosso esporte de igual para igual agora. Imagino que além de atleta, você deve ser fã de alguns deles. Em quem você se inspira?

PC: É até difícil de difícil dizer. São muitos atletas que me inspiram aqui no Brasil, imagina lá fora. São atletas que eu acompanho em redes sociais ou que eu já tive a oportunidade de competir juntos, os quais da mesma forma que hoje estou inspirando outras pessoas eles me inspiram também. E me passam mensagens positivas, de dar a volta por cima, motivação, ou fazem, por exemplo, levantamentos com uma técnica muito boa. Eu sou muito fã do Matt Fraser, do Josh Bridges, esses caras, para mim, possuem uma energia “bizarra”.

O Fikowski eu também acho um cara fora de série, muito louco, mas um louco bom, um cara “maluco beleza”. Mas o fato de eu respeitar e achar o trabalho do cara foda, não me fará colocá-los num patamar de algo inatingível. Eu já os venci em um wod do Open isolado, e já perdi outros.

Eu acho que todo mundo passa por uma seletiva praticamente igual e se o atleta chegou lá é porque está em nível parecido dos demais. A mentalidade será a mesma que eu encarei o nosso Regional, eu entrei como atleta número 40 (última vaga), mas e aí, entrei, dentro da arena todo mundo é igual. Acho que lá o sentimento será o mesmo, mas claro, alguns caras estão acima, fora de série, especialmente Fraser e Fikowski, o Vellner, que no geral são mesmo fora de série, mas não vou colocar ninguém em outro patamar não, vou entrar como entrei neste Regional.

HC: Você falou que seu ponto forte é de conseguir ir para a pain cave. Esse esporte não é moleza mesmo e muitos falam do "quanto estão dispostos a sofrer" durante um WOD. Que o que diferencia um atleta mesmo de CF é a capacidade de permanecer fazendo as coisas mesmo canado e com dor. Você acho que esse foi o seu diferencial? De onde você tira essa capacidade de aturar esse sofrimento todo?

PC: E acho que isso foi meu diferencial no Regional em alguns wods, especialmente o 4 e o 5, que são wods de dor, que você terá um incomodo grande e completamente fora da sua zona de conforto, e você precisa continuar se movendo senão fatalmente ficará para trás no workout. O wod 6 também teve um pouco disso, mas esse também foi uma questão de força no thruster, mas do jeito também é pain cave, são movimentos simples. Eu acho que isso fez diferença com certeza, no wod 1 também foi completamente isso, fora da zona de conforto. Eu acho que pra esse torneio o meu diferencial foi a minha “cabeça” mesmo, eu acho que entrei com a mente muito sã, muito focado, com objetivo e convicto daquilo que eu estava fazendo. Essa capacidade eu não sei de onde vem não, mas por incrível que pareça eu me sinto bem, eu gosto de fazer um wod que eu saio dele com a sensação de que não tinha mais nada pra dar, ou sentir aquela dor da perna queimando, pulmão queimando, eu realmente gosto disso. Eu acho que às vezes eu entro demais na pain cave, até antes do que deveria, mas eu realmente gosto dessa sensação, sei lá se isso é normal.

HC: Para finalizar, o que podemos esperar do Pablo Chalfun para os próximos anos? Muitos Games pela frente?

PC: Cara, é difícil a gente planejar uma coisa muito longa assim. Estamos vivendo uma temporada de cada vez. Esse ano vai ser meu “debut”, meu primeiro ano nos CrossFit Games, vamos ver como vai ser. Tenho certeza que vou voltar para o próximo ano faminto, sabe quando deu doce na boca da criança e tira? Vai ser mais ou menos isso, com certeza eu vou querer estar lá mais um ano pelo menos. Para me testar de verdade e ver até onde eu posso ir. CrossFit tem muito disso, né? Acho que todo mundo que está ali quer ver até onde você consegue ir, até onde você consegue por seu corpo à prova. Espero que tenha muitos Games aí pela frente, difícil prever isso, mas espero que sim.

 

foto cedida pela Reebok Brasil

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